Conforme prometido, e depois de alguns dias de recuperação, aquí estou eu a dar as minhas impressões de viagem. Devo dizer-lhe, como já antes o fiz pelo telefone, que a Viagem foi um exito e deixou-nos uma marca muito forte! Buenos Aires possui aquela que é uma das mais extraordinárias formas de expressão musical e dançada do mundo : O TANGO! O jantar/ show por vós organizado constituiu o 1º Spot da Viagem e deixou-nos de muito bem com a Argentina...
Não vou ser exaustivo na minha impressão de viagem. Eu já disse que ela nos " encheu as medidas". Para finalizar, e porque é de elementar justiça, uma referência ao Guia Xavier que nos acompanhou desde Calafate até Ushuaia. Rapaz de 22 anos bastante culto, falando fluentemente inglês e françês e com uma disponibilidade total para ajudar a resolver os problemas e para ficar para traz para auxiliar um ou outro caminheiro nas agruras das subidas ou das descidas.
Maria João
Navegação na Patagónia
Para finalizar queria só fazer uma referência ao Cruzeiro Magnífico que fizemos pelos fiordes chilenos da Terra do Fogo. Companhia de Navegação de grande classe, muita organização, muita segurança, muita vontade de mostrar aos clientes locais exóticos e inóspitos e acima de tudo um final muito repousante e excitante pela sensação de estarmos a ver coisas muito longe de casa que só conhecíamos dos compêndios de História e Geografia.
Cumprimentos e um até sempre dos
António Rui e Maria Cristina
Cumprimentos e um até sempre dos
António Rui e Maria Cristina
No topo do Alto Atlas
Acordo sobressaltado! O barulho estridente de um alarme ecoa por toda a camarata; o ruído inconveniente que teima em não parar impede-me de me voltar para o lado e adormecer. Olho para o relógio, são 6h. Está na hora de me preparar para partir em direcção ao cume.
Saio do refúgio ainda meio ensonado, talvez não tenha sido boa ideia ficar até às tantas a jogar às cartas com o Mustapha… Ele guarda o refúgio quase todo o ano, trocando ocasionalmente com os irmãos, para que assim possa ir a “casa” em Imlil. O céu está estrelado e não há vento, estou com sorte! Na montanha a meteorologia dita todas as regras; bom tempo equivale a boas hipóteses de cume. Mau tempo significa que provavelmente não chegamos lá, ou que nos metemos em sarilhos.
Ligo a lanterna, coloco cuidadosamente os crampons nas botas. Certifico-me que tenho tudo o que preciso na mochila. O sono e o frio aliado à ansiedade de subir, por vezes levam-me a descuidos; e o casaco de penas que carrego na mochila pode ser decisivo, especialmente quando estou em alta montanha no pico do Inverno.
Abandono o refúgio seguindo um trilho marcado na neve, rasto de outras pessoas que por aqui já passaram. Hoje não há muita gente a subir, apenas vejo lá à frente a luz das lanternas das duas norueguesas e a do seu guia marroquino.
Caminho vagarosamente, mantendo o passo constante, habituando o corpo à altitude. A minha respiração ofegante relembra-me que tenho de voltar às minhas corridas matinais.
Grande parte da ascensão é feita pela face norte, o lado escuro e frio da montanha. O que em certa medida é bom, pois mantêm a neve rija; sendo mais fácil de caminhar, já que assim não nos enterramos a cada passo. Mas nas secções mais empinadas, torna a subida também mais perigosa. Já que em caso de queda, ganhamos velocidade com mais rapidez (como eu viria a verificar na descida…).
A neve crepita a cada passada. Caminho num estado de transe, concentrando-me no trilho iluminado pelo halo da minha lanterna. A montanha sempre teve este efeito em mim, desligar-me do mundo. Neste momento tudo o que interessa é subir, nada mais importa. Estar aqui é esquecer tudo para além destas paredes, um prazer constante. Pelo isolamento – o que hoje em dia, é cada vez mais difícil. Pela conquista de um objectivo obvio.
Muitos se interrogam sobre o propósito de escalar, subir montanhas. Porquê desgastar o corpo, por vezes arriscar, sofrer. Para uns meros minutos num cume? Só que o cume nunca é o objectivo, apenas uma desculpa. O objectivo está na rota escolhida, no estilo adoptado. Existem muitas frases eloquentes para descrever este “desporto”, mas a explicação é simples. As montanhas são uma paixão arrebatadora, tão racional como qualquer outra paixão. Um local quase religioso. Aqui em cima tudo se torna mais claro, límpido e simples. Toda a responsabilidade, todas as hipóteses de sucesso, tudo depende apenas de nós. Da nossa força de vontade, da nossa preparação, da nossa motivação. (in)Felizmente estou numa via de ascensão fácil, que com esta meteorologia magnífica, não apresenta nenhuma dificuldade. Hoje a minha peregrinação é mais branda…
Chego ao topo da encosta norte, tenho o cume ao alcance da vista! O sol que acabou de nascer ilumina tudo à volta, aquecendo-me. Daqui consigo observar todo o esplendor do Alto Atlas; as íngremes encostas cobertas de neve, as agulhas de rocha, os lagos gélidos.
O vento começa a soprar com força e a subida adivinha-se ainda mais íngreme. Como se num último esforço a montanha estivesse a proteger o seu cume de saqueadores. Estou meio enjoado, subi depressa demais desde Imlil, ou então, tenho mesmo de voltar a correr... Seja como for, o cume está mesmo ali, já não falta muito. Resta apenas superar um último passo traiçoeiro e caminhar cerca de meia hora para lá chegar.
Finalmente estou na conhecida pirâmide de ferro que marca o topo do Atlas! Celebro com as norueguesas e o com Hassan, o seu guia marroquino. Em redor destas muralhas, uma planície infinita alonga-se até ao horizonte. Nos vales escavados a sul, avisto uma pequena aldeia, reconheço-a da minha última visita ao Atlas. Foi ali que abandonei a minha primeira tentativa de chegar a este cume. Dessa vez, o plano era cruzar a montanha de Sul para Norte. Lá partimos de Ceuta – em cima de uma bicicleta – em direcção ao deserto para depois subir o vale do Draa até ao Atlas. Quando chegamos aquela aldeia sentimos na pele a inclemência da montanha. Uma chuva torrencial, com granizo, aliada aos mais de 1500 km de bicicleta deitou por terra as nossas ambições. Dois anos depois cá estou no topo, a contemplar o silvo do vento, valeu a pena a espera…
Sou acordado por Hassan que se despede de mim, vão descer de volta ao refúgio. Querem lá chegar a tempo de almoçar e voltar ainda hoje para Imlil, esse é também o meu plano. Observo-os a percorrer o caminho de regresso, o mesmo que me levará de volta ao conforto da casa de Mohamed. Imagino o sabor do tajine que estará à minha espera, o calor de um banho quente. Mas… E aquele cume ali ao lado… Não parece ser muito longe… Será que dali tenho uma vista ainda melhor do Atlas?!
Tiago Costa (líder Nomad)
Saio do refúgio ainda meio ensonado, talvez não tenha sido boa ideia ficar até às tantas a jogar às cartas com o Mustapha… Ele guarda o refúgio quase todo o ano, trocando ocasionalmente com os irmãos, para que assim possa ir a “casa” em Imlil. O céu está estrelado e não há vento, estou com sorte! Na montanha a meteorologia dita todas as regras; bom tempo equivale a boas hipóteses de cume. Mau tempo significa que provavelmente não chegamos lá, ou que nos metemos em sarilhos.
Ligo a lanterna, coloco cuidadosamente os crampons nas botas. Certifico-me que tenho tudo o que preciso na mochila. O sono e o frio aliado à ansiedade de subir, por vezes levam-me a descuidos; e o casaco de penas que carrego na mochila pode ser decisivo, especialmente quando estou em alta montanha no pico do Inverno.
Abandono o refúgio seguindo um trilho marcado na neve, rasto de outras pessoas que por aqui já passaram. Hoje não há muita gente a subir, apenas vejo lá à frente a luz das lanternas das duas norueguesas e a do seu guia marroquino.
Caminho vagarosamente, mantendo o passo constante, habituando o corpo à altitude. A minha respiração ofegante relembra-me que tenho de voltar às minhas corridas matinais.
Grande parte da ascensão é feita pela face norte, o lado escuro e frio da montanha. O que em certa medida é bom, pois mantêm a neve rija; sendo mais fácil de caminhar, já que assim não nos enterramos a cada passo. Mas nas secções mais empinadas, torna a subida também mais perigosa. Já que em caso de queda, ganhamos velocidade com mais rapidez (como eu viria a verificar na descida…).
A neve crepita a cada passada. Caminho num estado de transe, concentrando-me no trilho iluminado pelo halo da minha lanterna. A montanha sempre teve este efeito em mim, desligar-me do mundo. Neste momento tudo o que interessa é subir, nada mais importa. Estar aqui é esquecer tudo para além destas paredes, um prazer constante. Pelo isolamento – o que hoje em dia, é cada vez mais difícil. Pela conquista de um objectivo obvio.
Muitos se interrogam sobre o propósito de escalar, subir montanhas. Porquê desgastar o corpo, por vezes arriscar, sofrer. Para uns meros minutos num cume? Só que o cume nunca é o objectivo, apenas uma desculpa. O objectivo está na rota escolhida, no estilo adoptado. Existem muitas frases eloquentes para descrever este “desporto”, mas a explicação é simples. As montanhas são uma paixão arrebatadora, tão racional como qualquer outra paixão. Um local quase religioso. Aqui em cima tudo se torna mais claro, límpido e simples. Toda a responsabilidade, todas as hipóteses de sucesso, tudo depende apenas de nós. Da nossa força de vontade, da nossa preparação, da nossa motivação. (in)Felizmente estou numa via de ascensão fácil, que com esta meteorologia magnífica, não apresenta nenhuma dificuldade. Hoje a minha peregrinação é mais branda…
Chego ao topo da encosta norte, tenho o cume ao alcance da vista! O sol que acabou de nascer ilumina tudo à volta, aquecendo-me. Daqui consigo observar todo o esplendor do Alto Atlas; as íngremes encostas cobertas de neve, as agulhas de rocha, os lagos gélidos.
O vento começa a soprar com força e a subida adivinha-se ainda mais íngreme. Como se num último esforço a montanha estivesse a proteger o seu cume de saqueadores. Estou meio enjoado, subi depressa demais desde Imlil, ou então, tenho mesmo de voltar a correr... Seja como for, o cume está mesmo ali, já não falta muito. Resta apenas superar um último passo traiçoeiro e caminhar cerca de meia hora para lá chegar.
Finalmente estou na conhecida pirâmide de ferro que marca o topo do Atlas! Celebro com as norueguesas e o com Hassan, o seu guia marroquino. Em redor destas muralhas, uma planície infinita alonga-se até ao horizonte. Nos vales escavados a sul, avisto uma pequena aldeia, reconheço-a da minha última visita ao Atlas. Foi ali que abandonei a minha primeira tentativa de chegar a este cume. Dessa vez, o plano era cruzar a montanha de Sul para Norte. Lá partimos de Ceuta – em cima de uma bicicleta – em direcção ao deserto para depois subir o vale do Draa até ao Atlas. Quando chegamos aquela aldeia sentimos na pele a inclemência da montanha. Uma chuva torrencial, com granizo, aliada aos mais de 1500 km de bicicleta deitou por terra as nossas ambições. Dois anos depois cá estou no topo, a contemplar o silvo do vento, valeu a pena a espera…
Sou acordado por Hassan que se despede de mim, vão descer de volta ao refúgio. Querem lá chegar a tempo de almoçar e voltar ainda hoje para Imlil, esse é também o meu plano. Observo-os a percorrer o caminho de regresso, o mesmo que me levará de volta ao conforto da casa de Mohamed. Imagino o sabor do tajine que estará à minha espera, o calor de um banho quente. Mas… E aquele cume ali ao lado… Não parece ser muito longe… Será que dali tenho uma vista ainda melhor do Atlas?!
Tiago Costa (líder Nomad)
Na Rota do Lobo Ibérico
Parabéns, mais uma vez, e votos de sucesso como prémio pela Vossa dedicação. De facto, o fim-de-semana foi mesmo muito bom da Vossa parte.
Um abraço.
Luís V.
Um abraço.
Luís V.
Fotoadrenalina nos Picos de Europa
Gostei muito a experiencia e com certeza que irei repetir, mas para um destino diferente. Marrocos já está debaixo de olho...
Madalena B.
Madalena B.
Prados do Gerês
Fica um testemunho pessoal de satisfação redobrada pelas condições propostas para o passeio e pela sua concretização perante as minhas expectativas. Talvez no futuro o Gerês possa merecer mais tempo de estadia e exploração, com o reforço dos laços pessoais que os nossos dois dias já prenunciaram.
Um abraço,
Luís V.
Um abraço,
Luís V.
Santuário e Campo Base dos Annapurnas
Não tenho medo de confessar que estava entupida de receios sobre esta viagem ao santuário dos Anapurnas. Não conseguia parar de fazer um bicho de sete cabeças acerca dos pormenores desta aventura. Nunca tinha feito um trekking, não sabia como reagiria à altitude, ao cansaço, aos horários demasiado madrugadores para quem está a gozar férias, como me adaptaria à alimentação e às precárias condições de higiene, isto para citar apenas alguns dos meus receios. Isto foi o meu princípio: receios.
Partimos no dia 5 de Outubro rumo ao Nepal, com uma paragem na Índia, em Nova Deli, onde ficámos uma noite e sentimos o primeiro ar do “exotismo” oriental. Primeira impressão: caos. Que se esqueçam as regras de trânsito mais elementares. Que se abandonem os pruridos em sujar a via pública. Que se ignorem princípios básicos de segurança: sim, as pessoas (e os animais!) podem viajar no topo dos autocarros. Segunda impressão: cores. As cores que enfeitavam os camiões que passavam por nós na estrada, as cores dos saris das mulheres hindus, as cores dos mais variados artigos que são vendidos pelas ruas, desde tecidos, frutas, bijutarias, a brinquedos, tudo!
Depois deste baptismo rápido de oriente, sentia-me mais preparada para enfrentar a bizarria que habitava a minha Kathmandu imaginária e, por arrasto, todo o Nepal.
Resultou. A passagem por Nova Deli funcionou como uma vacina a tudo o que de mais estranho desfilasse pelos meus olhos à chegada a Kathmandu.
Fomos recebidos com grinaldas de flores e muita simpatia. Ficámos instalados na zona turística da cidade, Thamel, que é um viveiro daquilo que designei por “turismo freak”, e onde vibrei com a profusão de cheiros, sons, mais e mais cores, tudo distribuído pelo oportuno comércio de souvenirs, restaurantes, vendedores ambulantes, trânsito complicado de veículos motorizados e riquechaws. Um tour pela cidade no dia seguinte levou-nos a conhecer as suas principais atracções, um pouco da sua história, cultura e tradições. Até aqui, nenhum dos meus receios tinha sido colocado de forma séria à prova. Que venha o trekking! E veio.
Mais um dia e chegámos a Pokkara. Linda. Encaixada num cenário fantástico de montanhas sagradas, a sua beleza fica redobrada quando as águas do lago Fedi(?) reflectem o perfil dos Anapurnas. Todas as condições de alojamento continuavam ao melhor nível, com a variante favorável de agora tudo parecer mais convidativo, graças à atmosfera bem descontraída desta cidade. Sentia-me cada vez mais encorajada a começar o meu trekking. Tudo no mais perfeito timming.
E agora era a valer. Seis trekkers, 1 guia e 3 carregadores. Estava formada a equipa para esta aventura (ou talvez ainda não). Início: Fédi. Objectivo: Tolka. 1ª paragem: Potanna. E lá fomos nós. Nada como começar com uma subida de alguns milhares de degraus (a sério!: o Zé contou-os). Nada mau porque, quando finalmente acabámos de subir, não me senti tão cansada como pensei que poderia ficar. Um indício do fim dos meus receios e uma primeira vitória orgulhosamente silenciosa. A paisagem transformava-se de campos de arroz ou milé(?) para bosques desafogados, de árvores altíssimas e muita frescura. Potanna surgiu a tempo de um merecido e compensador almoço, e Tolka, no fim do dia, parecia um prémio pelo esforço e coragem despejados em horas de caminhada e travessias de pontes à filme de aventuras. Um contratempo transformou um dos carregadores em guia nº 2 e acrescentou mais um membro à nossa equipa: o mítico super porter -“hundred kilos, no problem” era o seu lema.
No dia seguinte, o destino era Chomrong. Mais subidas intermináveis sobre degraus toscos e muito irregulares (benditos batons). Bandos de crianças das aldeias que cruzávamos pareciam troçar de nós. Muito bem compostos no seu uniforme escolar, ultrapassavam-nos aos saltos, desprovidos de qualquer equipamento trekker, alguns com os mais pequenitos ao colo, sem vacilar o mínimo! Grunf! Mas ok, a experiência é tudo. Uma coisa tentei interiorizar: mais me vale parar de lamentar - se miúdos com menos de 10 anos fazem isto com uma perna (e o irmão mais novo!) às costas!...
Em Chomrong fomos recebidos em grande, com direito a um espectáculo de danças e cantares locais. Como insistia em explicar o nosso mestre de cerimónias: “this is traditional gurung dance (...) “, e o resto do discurso ficava definitivamente lost in translation, se calhar devido a um excessozito de jumping tea, mas é melhor não entrar em detalhes.
Agora, era a vez da floresta húmida. As mudanças paisagísticas eram súbitas. Depois de determinada paragem, o cenário transformava-se abruptamente. Após Chomrong, acabaram os campos de cultivo e os bosques de estilo europeu. O ar tornava-se mais denso, o céu ficava escondido atrás das copas das árvores, o piso era agora extremamente escorregadio, feito de lama, recortado pelas raízes grossas das árvores. Com certeza que éramos observados por infinitas criaturas selvagens mas, de tão esquivas, não lhes pusemos a vista em cima. Algumas faziam-se ouvir, sobretudo as aves e os insectos e, tenho a certeza, alguns macacos. Definitivamente, não queriam nada com humanos. Restaram-nos alguns encontros indesejáveis com sanguessugas. A Paula ficou irremediavelmente marcada por um destes encontros.
De todas as paragens que fizemos, uma das mais fantásticas foi Dovan. Diante de uma vista aberta sobre o vale que atravessávamos, a Marisa decretou Dovan como o retiro ideal para quem necessite de uma pausa zen para se dedicar à leitura, à meditação, à tranquilidade, ao bem-estar espiritual, etc. No alto, o cume definidíssimo do Fish Tail inspirava uma calma de guardião silencioso. Para mim, tornava-se fácil perceber agora a sacralidade daquelas imponentes massas de rocha.
Entretanto, e voltando à viagem dentro de mim própria, ia-me apercebendo que estava cada vez mais esquecida dos meus receios iniciais. A naturalidade com que a gradual ausência de condições acontecia accionava a minha desconhecida capacidade de adaptação, de forma praticamente automática! E, quando falo de condições, refiro-me apenas à higiene. A alimentação nunca foi um problema, cada um descobrindo as suas preferências e mantendo-as, pois, em todos os locais, o cardápio permanecia inalterável. A Paulinha devorava chapatis com mel, o Zé pedia, invariavelmente, sopa de tomate a cada refeição, a Marisa reconfortava-se diariamente com o seu chazinho massala, o meu namorado descobriu uma deliciosa pizza de atum, o A e eu (bem, principalmente eu, usurpando a ideia do A) entretínhamo-nos tardes inteiras ao sabor de cerveja e Pringles (vá lá, outra vez, mais eu, é verdade). Isto, para não falar de delícias pontuais que íamos encontrando nalgumas paragens, a já mencionada pizza de atum de Macchapuchre B. C., os deliciosos “carossants” de chocolate e a divinal tarte de maçã de uma improvável pastelaria de Chomrong, a frescura crocante dos vegetais cultivados aos 4000 mts de altitude no A. B. C., as panquecas de chocolate em Himalaya, e o magnífico Dal Bat (“the nepali pizza”) que comemos pouco antes de regressar à civilização. Ah! Os horários madrugadores nunca fora um problema. Ainda por cima, posso dizer que, em montanha, nunca dormi uma noite de sono profundo! Só que o entusiasmo crescente pelas caminhadas e pelos diversos destinos impunha-se a qualquer preguiça fabricada! - o cansaço pode ser uma coisa muito “psicológica”.
Atravessada a floresta húmida, era a vez da paisagem de altitude, que se estendia para nos receber à chegada de Macchapuchre Base Camp. Vegetação rasteira, ribeiros de água glacial que acompanhavam permanentemente o trajecto, pedregulhos espalhados pelo solo, como cascalho de gigantes. A temperatura foi, para mim, a mudança mais difícil. Eu dou-me maravilhosamente bem com o sol e o calor, o frio é meu inimigo. Mas aprendi a enfrentá-lo. O truque, numa aventura destas, é simples, infalível e incontornável: basta mantermo-nos em movimento! Falei em gigantes. Voltando a eles, era à sua espera que estávamos todos ao chegar ao místico Anapurna B.C. Desilusão. Fomos recebidos por uma nuvem desmesurada, que tinha engolido todos esses gigantes que supostamente estariam aqui reunidos. As nuvens podem ser muitas coisas, fofas ou misteriosas, mas quentes não são! Estavam 2 graus negativos. Parecia não haver muitas opções para quem tinha um dia inteiro pela frente sem poder apreciar a paisagem circundante, aquela que, de resto, seria a razão principal pela qual nos demos ao trabalho (que agora encarava como prazer) da caminhada. Mas isso, só se for para as mentes menos criativas. O que se pode fazer a mais de 4000 mts de altitude, sob um frio de rachar e um nevoeiro quase opaco? Se fosse uma australiana aparentada de Miss Piggy, responderia: ficar à espera de ver quem chega e meter conversa para revelar o que há de mais cool acerca de mim - a minha nacionalidade! Se fosse um carregador nepalês, responderia: jogar voleibol! Se fosse um espanhol cheio de salero, responderia: fazer claque pela nossa equipa de carregadores, olé! E, se fosse um português na casa dos 30 e entusiasmado com o animadíssimo jogo decorrente, responderia: brincar às escondidas! Sim, ouviram bem, brincar às escondidas! Coisa que, nesta idade e a esta altitude, se pode transformar num passatempo a fervilhar de emoção e imaginação. Vale tudo, desde misturar-se com o público do voleibol, contar até 30 em 5 segundos, vestir um casaco alheio e assumir-se, assim, como “escondido”, correr como se não houvesse mais amanhã, até nem sequer tentar fazer o mais básico deste jogo, que é... esconder-se.
E pronto, sim, no dia seguinte a magia aconteceu. Levantámo-nos às 5:45 da manhã para ver, e vimos, claramente visto, finalmente, em todo o seu esplendor, imponente, majestoso, nítido e abrilhantado pelo fantástico espectáculo do nascer do sol, o fantástico e indescritível
SANTUÁRIO DOS ANAPURNAS!!
Querem saber como é? Eu disse indescritível.
Façam como eu: esqueçam todos os receios e vão até lá.
Até lá!
Susana Cunha
Partimos no dia 5 de Outubro rumo ao Nepal, com uma paragem na Índia, em Nova Deli, onde ficámos uma noite e sentimos o primeiro ar do “exotismo” oriental. Primeira impressão: caos. Que se esqueçam as regras de trânsito mais elementares. Que se abandonem os pruridos em sujar a via pública. Que se ignorem princípios básicos de segurança: sim, as pessoas (e os animais!) podem viajar no topo dos autocarros. Segunda impressão: cores. As cores que enfeitavam os camiões que passavam por nós na estrada, as cores dos saris das mulheres hindus, as cores dos mais variados artigos que são vendidos pelas ruas, desde tecidos, frutas, bijutarias, a brinquedos, tudo!
Depois deste baptismo rápido de oriente, sentia-me mais preparada para enfrentar a bizarria que habitava a minha Kathmandu imaginária e, por arrasto, todo o Nepal.
Resultou. A passagem por Nova Deli funcionou como uma vacina a tudo o que de mais estranho desfilasse pelos meus olhos à chegada a Kathmandu.
Fomos recebidos com grinaldas de flores e muita simpatia. Ficámos instalados na zona turística da cidade, Thamel, que é um viveiro daquilo que designei por “turismo freak”, e onde vibrei com a profusão de cheiros, sons, mais e mais cores, tudo distribuído pelo oportuno comércio de souvenirs, restaurantes, vendedores ambulantes, trânsito complicado de veículos motorizados e riquechaws. Um tour pela cidade no dia seguinte levou-nos a conhecer as suas principais atracções, um pouco da sua história, cultura e tradições. Até aqui, nenhum dos meus receios tinha sido colocado de forma séria à prova. Que venha o trekking! E veio.
Mais um dia e chegámos a Pokkara. Linda. Encaixada num cenário fantástico de montanhas sagradas, a sua beleza fica redobrada quando as águas do lago Fedi(?) reflectem o perfil dos Anapurnas. Todas as condições de alojamento continuavam ao melhor nível, com a variante favorável de agora tudo parecer mais convidativo, graças à atmosfera bem descontraída desta cidade. Sentia-me cada vez mais encorajada a começar o meu trekking. Tudo no mais perfeito timming.
E agora era a valer. Seis trekkers, 1 guia e 3 carregadores. Estava formada a equipa para esta aventura (ou talvez ainda não). Início: Fédi. Objectivo: Tolka. 1ª paragem: Potanna. E lá fomos nós. Nada como começar com uma subida de alguns milhares de degraus (a sério!: o Zé contou-os). Nada mau porque, quando finalmente acabámos de subir, não me senti tão cansada como pensei que poderia ficar. Um indício do fim dos meus receios e uma primeira vitória orgulhosamente silenciosa. A paisagem transformava-se de campos de arroz ou milé(?) para bosques desafogados, de árvores altíssimas e muita frescura. Potanna surgiu a tempo de um merecido e compensador almoço, e Tolka, no fim do dia, parecia um prémio pelo esforço e coragem despejados em horas de caminhada e travessias de pontes à filme de aventuras. Um contratempo transformou um dos carregadores em guia nº 2 e acrescentou mais um membro à nossa equipa: o mítico super porter -“hundred kilos, no problem” era o seu lema.
No dia seguinte, o destino era Chomrong. Mais subidas intermináveis sobre degraus toscos e muito irregulares (benditos batons). Bandos de crianças das aldeias que cruzávamos pareciam troçar de nós. Muito bem compostos no seu uniforme escolar, ultrapassavam-nos aos saltos, desprovidos de qualquer equipamento trekker, alguns com os mais pequenitos ao colo, sem vacilar o mínimo! Grunf! Mas ok, a experiência é tudo. Uma coisa tentei interiorizar: mais me vale parar de lamentar - se miúdos com menos de 10 anos fazem isto com uma perna (e o irmão mais novo!) às costas!...
Em Chomrong fomos recebidos em grande, com direito a um espectáculo de danças e cantares locais. Como insistia em explicar o nosso mestre de cerimónias: “this is traditional gurung dance (...) “, e o resto do discurso ficava definitivamente lost in translation, se calhar devido a um excessozito de jumping tea, mas é melhor não entrar em detalhes.
Agora, era a vez da floresta húmida. As mudanças paisagísticas eram súbitas. Depois de determinada paragem, o cenário transformava-se abruptamente. Após Chomrong, acabaram os campos de cultivo e os bosques de estilo europeu. O ar tornava-se mais denso, o céu ficava escondido atrás das copas das árvores, o piso era agora extremamente escorregadio, feito de lama, recortado pelas raízes grossas das árvores. Com certeza que éramos observados por infinitas criaturas selvagens mas, de tão esquivas, não lhes pusemos a vista em cima. Algumas faziam-se ouvir, sobretudo as aves e os insectos e, tenho a certeza, alguns macacos. Definitivamente, não queriam nada com humanos. Restaram-nos alguns encontros indesejáveis com sanguessugas. A Paula ficou irremediavelmente marcada por um destes encontros.
De todas as paragens que fizemos, uma das mais fantásticas foi Dovan. Diante de uma vista aberta sobre o vale que atravessávamos, a Marisa decretou Dovan como o retiro ideal para quem necessite de uma pausa zen para se dedicar à leitura, à meditação, à tranquilidade, ao bem-estar espiritual, etc. No alto, o cume definidíssimo do Fish Tail inspirava uma calma de guardião silencioso. Para mim, tornava-se fácil perceber agora a sacralidade daquelas imponentes massas de rocha.
Entretanto, e voltando à viagem dentro de mim própria, ia-me apercebendo que estava cada vez mais esquecida dos meus receios iniciais. A naturalidade com que a gradual ausência de condições acontecia accionava a minha desconhecida capacidade de adaptação, de forma praticamente automática! E, quando falo de condições, refiro-me apenas à higiene. A alimentação nunca foi um problema, cada um descobrindo as suas preferências e mantendo-as, pois, em todos os locais, o cardápio permanecia inalterável. A Paulinha devorava chapatis com mel, o Zé pedia, invariavelmente, sopa de tomate a cada refeição, a Marisa reconfortava-se diariamente com o seu chazinho massala, o meu namorado descobriu uma deliciosa pizza de atum, o A e eu (bem, principalmente eu, usurpando a ideia do A) entretínhamo-nos tardes inteiras ao sabor de cerveja e Pringles (vá lá, outra vez, mais eu, é verdade). Isto, para não falar de delícias pontuais que íamos encontrando nalgumas paragens, a já mencionada pizza de atum de Macchapuchre B. C., os deliciosos “carossants” de chocolate e a divinal tarte de maçã de uma improvável pastelaria de Chomrong, a frescura crocante dos vegetais cultivados aos 4000 mts de altitude no A. B. C., as panquecas de chocolate em Himalaya, e o magnífico Dal Bat (“the nepali pizza”) que comemos pouco antes de regressar à civilização. Ah! Os horários madrugadores nunca fora um problema. Ainda por cima, posso dizer que, em montanha, nunca dormi uma noite de sono profundo! Só que o entusiasmo crescente pelas caminhadas e pelos diversos destinos impunha-se a qualquer preguiça fabricada! - o cansaço pode ser uma coisa muito “psicológica”.
Atravessada a floresta húmida, era a vez da paisagem de altitude, que se estendia para nos receber à chegada de Macchapuchre Base Camp. Vegetação rasteira, ribeiros de água glacial que acompanhavam permanentemente o trajecto, pedregulhos espalhados pelo solo, como cascalho de gigantes. A temperatura foi, para mim, a mudança mais difícil. Eu dou-me maravilhosamente bem com o sol e o calor, o frio é meu inimigo. Mas aprendi a enfrentá-lo. O truque, numa aventura destas, é simples, infalível e incontornável: basta mantermo-nos em movimento! Falei em gigantes. Voltando a eles, era à sua espera que estávamos todos ao chegar ao místico Anapurna B.C. Desilusão. Fomos recebidos por uma nuvem desmesurada, que tinha engolido todos esses gigantes que supostamente estariam aqui reunidos. As nuvens podem ser muitas coisas, fofas ou misteriosas, mas quentes não são! Estavam 2 graus negativos. Parecia não haver muitas opções para quem tinha um dia inteiro pela frente sem poder apreciar a paisagem circundante, aquela que, de resto, seria a razão principal pela qual nos demos ao trabalho (que agora encarava como prazer) da caminhada. Mas isso, só se for para as mentes menos criativas. O que se pode fazer a mais de 4000 mts de altitude, sob um frio de rachar e um nevoeiro quase opaco? Se fosse uma australiana aparentada de Miss Piggy, responderia: ficar à espera de ver quem chega e meter conversa para revelar o que há de mais cool acerca de mim - a minha nacionalidade! Se fosse um carregador nepalês, responderia: jogar voleibol! Se fosse um espanhol cheio de salero, responderia: fazer claque pela nossa equipa de carregadores, olé! E, se fosse um português na casa dos 30 e entusiasmado com o animadíssimo jogo decorrente, responderia: brincar às escondidas! Sim, ouviram bem, brincar às escondidas! Coisa que, nesta idade e a esta altitude, se pode transformar num passatempo a fervilhar de emoção e imaginação. Vale tudo, desde misturar-se com o público do voleibol, contar até 30 em 5 segundos, vestir um casaco alheio e assumir-se, assim, como “escondido”, correr como se não houvesse mais amanhã, até nem sequer tentar fazer o mais básico deste jogo, que é... esconder-se.
E pronto, sim, no dia seguinte a magia aconteceu. Levantámo-nos às 5:45 da manhã para ver, e vimos, claramente visto, finalmente, em todo o seu esplendor, imponente, majestoso, nítido e abrilhantado pelo fantástico espectáculo do nascer do sol, o fantástico e indescritível
SANTUÁRIO DOS ANAPURNAS!!
Querem saber como é? Eu disse indescritível.
Façam como eu: esqueçam todos os receios e vão até lá.
Até lá!
Susana Cunha
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