Mostrar mensagens com a etiqueta Deserto e Costa Atlântica (com Gonçalo Cadilhe). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Deserto e Costa Atlântica (com Gonçalo Cadilhe). Mostrar todas as mensagens

Deserto e Costa Atlântica (com Gonçalo Cadilhe)

Olá,

De facto foi uma experiência para recordar sempre e, quem sabe, voltar a repetir com outro itinerário. Correu (quase) tudo muito bem e o saldo é francamente positivo. Só tivemos muito frio e, por isso, acho que para futuras viagens a NOMAD deverá salientar mais este aspecto, aconselhando roupas mesmo quentes para viagens feitas nesta época do ano.

Fátima C.

Deserto e Costa Atlântica (com Gonçalo Cadilhe)

Olá, Foi sem dúvida a viagem da minha vida.

Obrigado,
Jaime

Deserto e Costa Atlântica (com Gonçalo Cadilhe)

Boa tarde! A viagem correu muito bem, das melhores que fiz até hoje!

Obrigado e até breve!
Joana

Iuri no Deserto por Gonçalo Cadilhe

Talvez seja um dos lugares mais bonitos do mundo. Só me lembro disso agora que estou outra vez nele. Devia lembrar-me mais vezes — por exemplo, quando me perguntam: “para si qual é o lugar mais bonito do mundo?” Há sempre tantas respostas possíveis mas, agora, fico furioso por nunca me lembrar de dar esta: “o corredor de dunas de Sossusvlei”.

A palavra “corredor” não aparece em nenhuma designação oficial. Os mapas indicam apenas o nome “Sossusvlei” para este ponto de encontro de dunas que parecem atravessar o deserto do Namibe até virem quebrar aqui — como as ondas atravessam os oceanos até chegarem a um litoral. Os ventos explicam por que razão Sossusvlei está para as dunas como os litorais estão para as ondas. Os ventos aqui mudam, e as dunas não avançam mais. E, tal como os litorais sublimam a energia das ondas fazendo-as quebrar, também a um visitante o fim do mar das dunas transmite a ideia épica de um condensado da beleza de todos os desertos do mundo.

Eu chamo-lhe “corredor” mas é na realidade uma estrada com 60 quilómetros que sai do parque de campismo de Sesriem, na base das montanhas de Naukluft e segue para oeste, na direcção do Atlântico, que está a mais de cem quilómetros de distância. A estrada acaba em Sossusvlei, depois começa o deserto. À medida que nos aproximamos de Sossusvlei, a paisagem muda: os contrafortes das montanhas Naukluft dão lugar a colinas suaves que, por sua vez, dão lugar a dunas abruptas que anunciam o deserto. São estes últimos vinte quilómetros que me deixam furioso por nunca me lembrar deles.

As dunas mais impressionantes do mundo descem rapidamente até à berma da estrada — labaredas que dançam do deserto para fora na nossa direcção e ao nascer do sol têm a cor do fogo para mais um dia a ferver. E o carro desfila pelo meio desta embaixada exuberante quase sem reparar nela, porque o ponto de encontro é mais à frente: no fim do corredor, em Sossusvlei.
Os visitantes param aqui. Ninguém tenta continuar. Como se a curiosidade terminasse onde termina a vida: para lá de Sossusvlei, apenas o silêncio estéril e sufocante, o excesso de espaço e luz, a recusa de dádivas da Terra, a ausência de pulso do planeta. O princípio do nada. E, no entanto, esperamos um guia que nos vai mostrar como se vive no deserto. É esse o tema do “tour”: explicar o funcionamento do ecossistema do Namibe, caminhando um par de horas nesse condensado de todos os desertos do mundo.

Espero por um guia que se assemelhe vagamente a um bosquímano. Não pretendo uma mistificação em tanga e lança, mas seria de supor que o nosso guia terá nascido e crescido no ecossistema que tão bem conhece. Afinal, o nosso guia não é bosquímano, nem namibiano, nem sequer africano. Não é um guia, é uma guia… e é japonesa. “Amo o deserto”, explica-nos, quase que justificando-se. “Chamo-me Iuri”.

Imagino Iuri em Tóquio. Ou em qualquer outra grande cidade do Japão: Iuri enfaixada em trânsito, prédios, horários e convenções sociais. E depois, um dia, o encontro com a liberdade do deserto. “Estudei turismo e era uma dessas guias com o guarda-chuva vermelho esticado ao alto como vocês vêem na Europa”, explica-nos.

Há cerca de dez anos, Iuri chegou a Sossusvlei. Descalçou-se, e nunca mais se foi embora. Nem nunca mais se calçou. “Porque andas descalça, Iuri?”, perguntamos-lhe. Ela sorri e encolhe os ombros, todos os dias lhe devem fazer a mesma pergunta. Põe-se a correr por Sossusvlei fora, diz: “Sigam-me. Mas não precisam de correr”. Corre até encontrar vida, depois chama-nos. Aponta: um escaravelho, uma aranha, uma raiz, excrementos de chacal, pegadas de antílope. Todos eles espécies únicas no mundo que só existem aqui: adaptaram-se para poderem sobreviver no deserto da Namíbia.

Iuri também se adaptou, se calhar anda descalça como quem sobe um degrau na evolução dessa subespécie humana que é a dos que amam o deserto. Casou com um homem da sua subespécie, um branco sul-africano que também se mudou para Sossusvlei. O apelido do marido é “Bushman”, em português significa “bosquímano”. Não é alcunha, dizem-me, é mesmo assim. Juntos, possuem uma pequena agência de turismo, especializada em passeios pedestres por Sossusvlei.

Há alguns meses atrás atravessaram o Namib desde aqui até ao Atlântico, a pé. E descalços, claro. Lembro-me de uma conversa com o meu amigo Ian, que vive perto daqui, em Witsvlei, na orla de outro grande deserto, o Kalaári. Ian elogiava as vantagens de possuir um todo-terreno na Namíbia: “às vezes, conduzo até lugares tão afastados de qualquer estrada que acredito ser o primeiro homem a chegar lá”. Descalço, pelos vistos, vai-se mais longe.

Enquanto a Iuri vai explicando todos os truques que a vida teve que inventar para sobreviver aqui — e por vezes nem sequer conseguiu — eu penso na absurda teoria do “intelligent design”, que os fundamentalistas evangélicos gostam de citar. Deus foi conduzindo a evolução das espécies até ao produto final, o Homem. Então para quê as dezenas de milhares de espécies extintas? E para quê este “desvio” pelo deserto? Para eles, a teoria da evolução de Darwin e o dogma criacionista da Bíblia são compatíveis; Religião e Ciência são duas faces da mesma moeda. Não são. Penso que são como uma ampulheta: à medida que a areia irá enchendo o compartimento da Ciência e do saber, o outro compartimento irá esvaziando-se até perder qualquer significado.

Penso também noutra coisa. Que este tour devia durar duas horas, foi o que pagámos. Mas a Iuri já está connosco há três horas e meia, e não parece querer terminar as suas explicações. Encontra sempre mais um lagarto, um cacto, uma mudança de direcção do vento, um vestígio de mar na areia do deserto. E segue mais uma explicação. Iuri ama o deserto, e gosta de partilhar esse amor. Nós agradecemos. “Venham atrás de mim, não precisam de correr”, repete, enquanto corre à nossa frente, à procura de mais vida para explicar, descalça.

Gonçalo Cadilhe

nota: Artigo referente à viagem Nomad líderada pelo Gonçalo em Junho de 2008, mais info em http://www.nomad.pt/empresa.htm. Publicado no Expresso em 26 Julho 2008.

Deserto e Costa Atlântica (com Gonçalo Cadilhe)

Olá,

De volta a Portugal, feliz e contente do que por lá vivi, aqui estou a dar notícias. A minha aventura em África foi maravilhosa! Nada é impossível quando a força de vontade é grande... e uma sexagenária fazer uma viagem daquelas é obra... Começar e terminar com horas intermináveis de voo e várias ligações...e meter pelo meio um "ritmo de papa quilómetros" em estradas de terra batida e caminhadas à velocidade da luz..., não se pode dizer que seja fácil! Mas, adorei a experiência e estou disponível para outra ....Agradeço à Nomad ter proporcionado que tal fosse possível e ter convidado o Gonçalo para Lider da viagem.

Até breve,
Mená

Namíbia por Gonçalo Cadilhe

O lado oculto da Lua? É fácil de avistá-lo: é aqui, na Terra. Mais exactamente a uns dez minutos de Swakopmund, à direita na estrada que sai da cidade. Não é preciso explicar mais nada: só há uma estrada que sai de Swakopmund. Passada uma dúzia de quilómetros de ter inicio a viagem, é só olhar à direita: está ali, a lua. Aquela que nunca tínhamos conseguido ver quando olhávamos para o céu.

Esquecia-me de apontar uma última coisa sobre esta face oculta da lua: a localização de Swakopmund. É uma cidade da Namíbia. Aliás, é a outra cidade da Namíbia. Só há duas, dignas dessa classificação: Windhoek, a capital. E Swakopmund, a outra cidade. O resto da Namíbia é um desolado vazio imenso onde, de tantas em tantas centenas de quilómetros, aparece um tímido aglomerado urbano.

Pensando melhor, nem são precisas tantas indicações para chegar à face oculta da Lua. Basta dizer: Namíbia. Tudo neste país infinito parece estar já fora da Terra: um país lunar. Desertos que estão entre os mais áridos do planeta; desfiladeiros terríveis que se abrem só a quem está disposto a desaparecer da civilização por uns dias; correntes oceânicas que tornam inviável qualquer forma de vida que não seja sub-antártica; o maior meteorito do mundo ali caído por acaso, ou talvez não; temperaturas que queimam de dia, gelam de noite; e um vazio de pontos de referência na paisagem estonteante. Os topónimos sublinham esta qualidade etérea, inquietante da Namíbia: Costa dos Esqueletos; Montanha Queimada, oásis Solitário, Fonte Incerta, Água Má, Colina do Sangue, Floresta Petrificada. Ou seja, Skeleton Coast, Burnt Mountain, Solitaire; Twyfelfountain, Uis, Bloedkoppie, Petrified Forest.

Estão todos lá, espalhados por qualquer mapa ou guia. Às vezes ponho-me a olhar para estes mapas e guias e divirto-me a procurar nomes estranhos, ou factos curiosos, ou percursos possíveis. Divirto-me? Enfim, não é um divertimento, é um planeamento. Encontro algo que me interesse, um topónimo, um marco paisagístico, uma história de vida, e digo: “bom, a próxima vez que for à Namíbia…”. É um país que conheço bem e que não me canso de querer conhecer melhor. Também, porque a Namíbia está cada vez melhor. Passaram quinze anos desde a minha primeira viagem a este país relegado para o sul do mundo, e cada vez é mais “fácil” e “conveniente” visitar a Namíbia. Parecem palavras estranhas para uma nação de paisagens áridas, aldeias dispersas, animais selvagens, infra-estruturas reduzidas. Mas creio que é esse o segredo do enorme sucesso turístico que este país conheceu ao longo dos anos noventa: o governo investiu na modernização das infra-estruturas, no respeito pelo meio ambiente, no bom estado das (poucas) estradas nacionais e sobretudo apostou numa oferta turística sustentável e ecológica.

Não é por isso um paradoxo que a Namíbia seja ao mesmo tempo fácil e selvagem, moderna e primordial, conveniente e inacessível. Um dos exemplos que melhor ilustram este paradoxo é o circuito dos camiões overland, ou seja, de enormes viaturas que num passado longínquo foram usadas sabe-se lá para quê — talvez no transporte de pilares para um viadutos, ou de pés de galo de cimento para um quebra-mar, ou de vigas de carris para linhas ferroviárias — e que agora conhecem uma nova vida a transportar mochileiros em excursões nos limites da civilização. Estes camiões apetrecham-se de tudo o que é indispensável para a vida humana — água, comida, tendas, lenha, combustível — e enfiam-se com os seus passageiros durante uns dias nesse vazio absoluto que é o território da Namíbia.

Integrado numa destas excursões, tive a possibilidade de conhecer alguns dos lugares mais inóspitos e bonitos do planeta. Viajávamos pelo planalto desértico fora como se fosse o quintal de casa, com um sentimento de prepotência e confiança como se tivéssemos sido criados naquele ambiente. Claro que esse sentimento não nos pertencia, era-nos transmitido pela desenvoltura com que o motorista do camião overland atravessava leitos de rios secos há décadas, e contornava calhaus do tamanho de estádios de futebol e descobria com a precisão de um satélite clareiras sem inclinação para montarmos as tendas e passarmos a noite.

O motorista era uma mulher, uma mulher de armas que se chamava Maya e que me lembrava uma personagem feminina de uma história do Lucky Luke que, também ela, mascava tabaco, jogava póker e dizia palavrões, e tal como a Maya era oriunda de um deserto, neste caso o do Arizona. A diferença entre as duas mulheres era simples: a Maya existia mesmo.

Não havia nada homossexual ou sequer anti-feminino na Maya. Não era uma valquíria nem uma amazona. Simplesmente, pertencia ao planalto desértico da Namíbia, tinha crescido num dos ecossistemas mais duros e áridos e desmesurados do planeta, todos os dias assistia ao por-do-sol mais bonito da minha vida, e dormia debaixo das únicas estrelas que eu jamais vi que parecessem ter cor. Era, portanto, natural para a Maya ficar indiferente a estas coisas e estar mais interessada numa partida de póker. E quem não sabe conduzir por todos os terrenos, na Namíbia tem pouco por onde conduzir. Por tudo isto, o que a mim me parecia um comportamento, uma atitude existencial digna de um livro de banda desenhada; para a Maya era o dia quotidiano. A sua feminilidade traduzia-se simplesmente por ser mulher na Namíbia.
Recordo particularmente comovido um lugar onde a Maya nos conduziu uma noite. Acampámos no sopé dos montes Naukluft e mais uma vez eu tinha a sensação de ter chegado ao limite do mundo. Sabia que não, tinha a consciência que todos os meses a Maya devia trazer um grupo de mochileiros aqui, e também outros “tours” de camiões overland deviam usar a zona para pernoitar. Mas essa consciência não afectou a minha capacidade de me abismar com a “excentricidade” do lugar: “excentricidade”, aqui, é no sentido de estar fora do centro, precisamente na periferia do mundo. No seu fim.

Nessa noite, afastei-me lentamente das tendas, caminhei na direcção de um enorme maciço monolítico, desses que têm a dimensão de um estádio de futebol, e pus-me calmamente a subir pela crina. Não levava lanterna, não era preciso. Era uma noite luminosa, transparente. São sempre assim, as noites da Namíbia: estamos num planalto a mais de mil metros de atitude, num deserto, numa região sem smog luminoso. Creio que são as noites mais claras do mundo.
Não queria chegar ao topo de coisa nenhuma, só desejava caminhar um pouco pela noite sem lanterna, e depois olhar para as estrelas. Fiquei ali em silêncio sentado, esparramado na crina do monólito, a olhar para as estrelas. Como se este fosse o momento mais intenso e irrepetível da minha vida, como se tivesse que absorver cada segundo com toda a concentração do mundo para que nunca mais o esquecesse. Olhei para as tendas. A noite era tão clara que conseguia observar o acampamento como se estivesse dentro dele.

Sorri. Entre outras coisas, lá estava a Maya, a fumar um cigarro, a limpar qualquer coisa no motor do camião, talvez a dizer um qualquer palavrão, completamente desinteressada das estrelas, apenas mais uma noite de trabalho no quotidiano dos dias da Namíbia.